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JORNAL OPÇÃO: A Goiânia da campanha e a Goiânia da realidade

Promessas de Iris Rezende para ganhar a eleição em 2016 ficaram no papel e, pior, ele fez o contrário do que disse que iria fazer em algumas delas

Iris Rezende precisa buscar novas formas para administrar Goiânia

 

Por Jornal Opção – Edição 2205 – 14/10/2017 12h59
Cezar Santos e Yago Sales

Agentes da guarda municipal dentro dos ônibus e próximos às paradas mais afastadas, para dar mais segurança aos usuários, lotes baldios sem matagal, emprego e igualdade a todos os munícipes, mobilidade urbana amparada com tecnologia de ponta. Uma cidade com médicos 24 horas nos postos de saúde, todas as ruas pavimentadas, escritura às famílias em áreas irregulares e com mais 25 parques arborizados, com lagos, brinquedos, principalmente na periferia.

Desorganização do sistema de Saúde provoca filas nas unidades da Prefeitura

 

Não poderiam faltar 20 novas escolas em tempo integral com 15 mil vagas para desafogar a fila. Câmeras de segurança com monitoramento em pontos estratégicos, programa de combate às drogas, iluminação pública, ruas limpas e lixeiras sem sacos plásticos amontoados. Perfeito, não? Sim, caso não passasse de falácias eleitoreiras de Iris Rezende (PMDB), em suas propostas registradas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e em entrevistas a jornais, sites e emissoras de televisão e rádios para o pleito de 2016.

Passados nove meses da posse, contudo, os goianienses vivem uma realidade em tudo diferente do que Iris prometeu. Promessas tão boas a ponto de convencer 57% do eleitorado goianiense a votar nele, ou seja, 379.318 mil votos no segundo turno na disputa contra Vanderlan Cardoso (PSB).

Lixo acumulado provoca mau cheiro no Setor Crimeia Leste

 

O retrato mais significativo da diferença entre a Goiânia que Iris prometeu e a Goiânia que os goianienses têm hoje talvez sejam os amontoados de lixo em vários locais. No Setor Crimeia Leste, por exemplo, na quarta-feira, 11, moradores reclamavam do mau cheiro exalado pelo lixo acumulado há vários dias. Nos Cais, filas de pessoas buscam atendimento que demora e muitas vezes não vem.

Fechamento de Cais

Fato é que, desde sua posse, Iris Rezende não cumpriu o que prometeu e, pior, em alguns aspectos, tem feito exatamente o contrário do que disse que iria fazer. Um exemplo foi o fechamento do Centro Integrado de Atenção Médico Sanitário (Ciams) Jardim América. E o prefeito pretendia fechar, ainda, o Centro de Atenção Integrada à Saúde (Cais) Jardim Guanabara para reforma e, posteriormente, transformá-la numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA), uma estrutura bem maior e mais aparelhada. O impacto seria enorme. Na região, pelo menos 70 mil pessoas ficariam sem os serviços médicos. “Se a secretaria não consegue gerir um Cais imagina uma UPA”, critica o vereador Vinícius Cirqueira (Pros), que batalhou para impedir o fechamento da unidade.

Cirqueira usou a tribuna da Câmara de Vereadores do dia 28 de setembro para expressar a preocupação dos moradores com o fechamento da unidade. As obras poderiam não ser concluídas dentro do prazo de seis meses estipulado pela prefeitura. Por meio de um decreto parlamentar, o vereador conseguiu suspender a obra na unidade do Guanabara.

Na campanha, no entanto, Iris disse à imprensa, no dia 20 de outubro de 2016, que manteria abertos durante 24 horas todos os Cais e, mais, abriria todas as unidades fechadas, que funcionariam com médicos em número suficiente e pessoal técnico. “Os Cais que estão abertos ainda não têm médicos, mas pior é a falta de pediatra”, diz Cerqueira.

Outra proposta que não avançou era de que a prefeitura, caso Iris fosse eleito, ampliaria os terminais de ônibus e renovaria toda a frota de ônibus. Depois da posse, uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) na Câmara detectou as falhas e necessidades do sistema, mas nada foi implementado pela Prefeitura.

Na educação, mais promessa que ficou no vazio. Iris afirmou que ampliaria a rede de ensino fundamental, com mais 20 escolas de tempo integral.

Demanda por vagas nas creches não é atendida a contento

 

O descompromisso com o programa de governo, no entanto, não constrange o prefeito. Ao jornal “O Popular”, em 30 de outubro de 2016, Iris Rezende prometeu entregar escrituras de imóveis sem nenhum custo às famílias que fossem beneficiadas, além de regularizar áreas. O mesmo foi repetido à população da região do Jardim Botânico.

A promessa foi registrada no TRE no item 19, onde Iris propunha: “Regularizar escritura de imóveis sem nenhum custo”.

Mas, na realidade, o que Iris fez foi decretar a desapropriação de imóveis particulares do Jardim Botânico no dia 6 de setembro. Pelo menos oito ruas, nas redondezas do parque, devem ser expropriadas, se o decreto não perder validade a partir de ação do Le­gislativo. A intenção de Iris, de acordo com o texto do decreto, é ampliar a Marginal Botafogo. Os moradores da região, que confiaram no peemedebista, estão indignados.

A vereadora Dra. Cristina (PSDB), disse ao Jornal Opção que apresentou um decreto legislativo que susta os efeitos do decreto do prefeito. Agora, a vereadora vai precisar de parecer favorável de 18 colegas com aprovação em um único turno. O presidente do Instituto Comunidade Pro Logística Urbana, entidade que representa os interesses dos moradores, Jorge Hércules, diz que o decreto de desapropriação tira direitos deles. “O prefeito não quer pagar indenização nenhuma. Querem nos tirar de lá sem direito a nada.”

As promessas de Iris registradas em cartório

– Investir na modernização tecnológica da prestação de serviços públicos
– Reavaliação dos sistemas de limpeza urbana, estabelecendo um plano de logística reversa e restabelecendo a coleta seletiva.
– Convênio com o Sistema S, para garantir a formação de jovens aprendizes para as áreas com maiores demandas
– Convênio com Sine e Secretaria Estadual de Cidadania e Trabalho para identificar o não preenchimento de vagas por falta de pessoal qualificado
– Cursos profissionalizantes de línguas, artes e práticas esportivas nas escolas e áreas públicas em horários em que as salas de aula não estejam sendo utilizadas.
– Parcerias com associações, sindicatos e cooperativas para a implantação de projetos de empreendedorismo e geração de emprego
– Integrar as secretarias e órgãos para fomentar o desenvolvimento econômico/social com foco na redução da desigualdade entre as regiões de Goiânia
– Criar um grupo de estudos para desenvolver o Projeto Mobilidade Urbana
– Estabelecer política de estacionamento que contribua para o gerenciamento da mobilidade
– Implantar sinalização voltada à orientação de destinos
– Melhorar as ligações interbairros, inclusive com construções de pontes
– Pavimentar todas as ruas de Goiânia
– Garantir médicos por 24 horas nos postos de saúde
– Desenvolver estudos para entrega em domicílio de remédios de uso contínuo aos doentes crônicos e idosos
– Capacitar e aparelhar a Guarda Civil Metropolitana para atuar dentro da competência do município
– Ampliar o videomonitoramento
– Combater as drogas
– Implantar projetos de iluminação pública
– Regularizar escritura de imóveis sem nenhum custo
– Rever o valor do IPTU
– Construir 25 parques
– Ampliar os terminais de ônibus e renovar toda a frota de ônibus com veículos novos e acessíveis
– Abrir uma nova licitação para o transporte coletivo
– Construir apartamentos populares
– Construir 20 novas escolas de tempo integral e criar 15 mil vagas
– Recuperar mais de 3 000 km de asfalto
– Pedir a revisão da concessão da Saneago
– Criar o Sistema de Atendimento à Saúde pela internet
– Convocar aprovados no concurso da educação
– Regularizar o Uber

Até aliados de Iris Rezende reclamam

As medidas do prefeito têm irritados os vereadores. “Faz parte do jeito irista de administrar”, repetem. Centralizador é o adjetivo que eles evocam, sem constrangimento, sobre o chefe do Executivo, que vem descumprindo suas promessas de campanha. O vaivém na gestão contradiz as propostas registradas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Outro exemplo desse vaivém nas promessas se deu mais recentemente, quando o prefeito decretou a regulamentação do Uber sem discutir com a Câmara, como adiantou o Jornal Opção no dia 6 de outubro. O decreto estabelece normas para a exploração da atividade econômica de aplicativos de transporte particular, como o Uber e o 99POP, em Goiânia. Entre outras coisas, a medida determina que os condutores tenham de se adequar, utilizando a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) definitiva, não tenham antecedentes criminais, possuam endereço fixo e comprovação de contratação de seguro para os passageiros.

O decreto fixa o prazo de 30 dias para as operadoras de tecnologia apresentarem requerimento de autorização, 90 dias para o gradativo cadastramento dos condutores e 180 dias para adequação de veículos. As normas dizem ainda que os veículos não podem ocupar pontos e vagas de táxi e nem manter-se em aglomeração aguardando chamadas.

Vereador Andrey Azeredo, presidente da Câmara Municipal: “Incabível fazer por decreto”

 

As empresas dos aplicativos teriam de pagar R$ 0,10 centavos por quilômetro rodado. O valor seria recolhido, mensalmente, pela Operadora de Tecnologia (OT) mediante emissão de Documento Único de Arrecadação Municipal (DUAM). Os valores seriam reajustados anualmente.

Ocorre que o decreto do prefeito veio três meses após Iris ter garantido que encaminharia um projeto de lei à Câmara Municipal para tratar do tema. Ele havia se comprometido com o presidente do Legislativo, vereador Andrey Azeredo (PMDB), que a decisão não seria monocrática.

“Eu arquivei um projeto sobre esta regulamentação, confiando no prefeito”, contou o vereador Vinicius Cerqueira que, ainda, propôs criar um fundo com o que a prefeitura arrecadasse com os aplicativos para aplicar no transporte coletivo da capital e Região Metropolitana de Goiânia.

Atropelo

Mesmo aliado fiel de Iris Rezende, o presidente da Câmara, Andrey Azeredo (PMDB), criticou o atropelo à Câmara. O vereador considerou “incabível” a medida. “O teor do decreto me preocupa. Primeiro, um preço público que não é justificado. Não se tem uma fórmula, não estabelece a motivação desse preço público, que é o mais caro do Brasil. O empresário não vai absorver esse preço público tirando de sua margem de lucro, ou seja, esse preço instituído vai ser repassado ao consumidor. Além disso, cria penalidades e sanções e é incabível fazer isso por decreto. É preciso uma lei formal. Então, o decreto por si só não tem validade jurídica”, pronunciou-se.

Azeredo, um dos principais defensores da gestão Iris, informou que deve arquivar todos os projetos de lei sobre o assunto que tramitam na Casa. Ele pediu, ainda, que os vereadores contribuam para que seja elaborado uma nova minuta de projeto de lei para regulamentar os aplicativos de transporte em Goiânia. Um decreto legislativo, elaborado pelo vereador Carlin Café (PPS), pede a suspenção do decreto de Iris. Segundo Café, os usuários serão os principais prejudicados.

“O prefeito não dialoga e fica clima de desconfiança”

A falta de um líder na Câmara, destaca o vereador Romário Policarpo (PTC), dificulta o diálogo e tem deixado um clima de desconfiança entre o Executivo e o Legislativo. “A gente não sabe o que o prefeito quer, qual a intenção em alguns projetos. Os vereadores da base estão perdidos, não sabem como atuar”, lembra o parlamentar.

Esse perfil inflexível talvez explique o motivo de o prefeito ainda não ter discutido a proposta de que implantaria subprefeituras nos primeiros meses de governo. Nada até agora. Mas ele suportaria mais alguém mandando? É o que pergunta a vereadora doutora Cristina (PSDB): “Ele que mandar em tudo, criar subprefeitura é dar autonomia. Ele não suportaria isso. Na verdade, Iris queria fazer paralelo com a campanha do Vanderlan Cardoso, que tinha as subprefeituras como carro-chefe. Iris não deve cumprir”.

A tucana lembra que Iris anunciou que faria 25 parques. Ele reconhece que a cidade necessita, principalmente no Santo Hilário e Amendoeira, por exemplo. “Iris poderia, também, fazer algo no aterro sanitário que, na mão de um urbanista, viraria uma referência. Goiânia está cheio de áreas, depende da vontade política.”

A vereadora, uma das mais ferrenhas críticas à gestão do Iris, sobretudo na Saúde, lembra que, em contraposição às promessas de que aumentaria empregos, Iris Rezende acabou com os estágios para menores aprendizes. Mais uma (contra) promessa de Iris, portanto.

Escolas fechadas

Na educação, o peemedebista prometeu práticas esportivas, cursos de línguas, cursos profissionalizantes e artes nas escolas e áreas públicas. “Mas o que estamos vendo são escolas fechadas”, reclama Dra. Cristina. Por outro lado, a vereadora critica o que Iris tem como principal ação de governo, os mutirões. “Fazer mutirão gera emprego? Só gastos. A Prefeitura gasta cerca de 1 milhão de reais por edição, é muito dinheiro. Ele dá uma passada de ‘batom’ na praça. A prefeitura precisa otimizar a máquina pública. Mutirão já foi, as faculdades, empresas já fazem. Já está defasado.”

Clécio Alves: “Auxiliares ruins”

Aliado de Iris Rezende, o vereador Clécio Alves (PMDB) também tem críticas, principalmente no tocante à qualidade dos auxiliares. “Quero que Iris faça uma gestão como ele pregava na campanha eleitoral, que a cidade seria a mais linda, mais eficiente. Ele pode contar comigo para isso, mas se ele pedir para aumentar imposto eu não vou apoiar. Esse secretariado, com algumas exceções, está atrapalhando a administração”, complementa.

Clécio investe também contra os titulares das Pastas de Saúde e Educação, respectivamente Fátima Mrue. Ele relata vários problemas na área e pergunta: “Como nomeia uma secretária de Saúde cuja ineficiência contribui para matar as pessoas nas filas das unidades da Prefeitura?”

Jorge Kajuru: “Faltam médicos”

Um dos críticos mais ferozes da gestão Iris, o vereador Jorge Kajuru (PRP) acorda antes de o sol nascer para percorrer Goiânia, filmando com um celular e transmitindo as cenas ao vivo. Os problemas sem solução que o vereador flagra são inúmeros. Ele reconhece que Iris encontrou uma prefeitura repleta de problemas financeiros, mas não arrefece as críticas: “Ele não está cumprindo promessas básicas, que não dependem da herança maldita deixada pela gestão do Paulo Garcia (PT).”

Kajuru ressalta também os problemas na saúde. “Iris prometeu Cais 24 horas, funcionando de dia e de noite. Estamos vendo o contrário. Não tem nem pilha para medir pressão, luvas, máscaras. Dos 12 postos de saúde, apenas dois possuem pediatras. Médicos faltam, principalmente domingo. Eles vão embora depois das 13 horas. O médico vai para casa como se ninguém em Goiânia ficasse doente”, relata.

Cais sem curativo

Priscila Tejota: “Vai criando o caos” – A vereadora Priscila Tejota endossa as críticas de Kajuru, lembrando que no Cais Novo Mundo não tem nem mesmo curativo. “Iris vai criando um caos. Ele está conseguindo fazer a gestão dele ser pior do que a de Paulo Garcia. Ele disse que ele faria a melhor gestão da vida dele, só se for para a família, para os amigos”, critica Priscila.

A vereadora destaca ainda a falta de vagas nas creches. “Quando candidato, Iris prometeu mais creches e, até agora, nada. Há cerca de 19 mil crianças na espera. Não cumpriu nada. A palavra dele não está valendo nada. Todos os recursos estão colocados nos mutirões, que é eleitoreiro, marqueteiro.”

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